2 Espaço

O edifício da Secção do Liceu Gil Eanes na Praia

“O edifício em que funcionou a Secção do Liceu Gil Eanes na Praia, é uma adaptação cheia de deficiências e quase sem as mínimas condições para o fim a que se destina. Apenas duas salas de aula, pelas suas dimensões se podem considerar razoáveis. As outras, além de pequenas, apresentam, umas o grave inconveniente de ficarem sobranceiras à rua de Sá da Bandeira, no local de maior movimento e barulho. Das outras, uma é nitidamente interior, recebendo luz da varanda e a outra, aonde funcionou o quarto ano, não tem espaço para acomodar convenientemente mais de doze alunos e no entanto, a força das circunstâncias, obrigou-nos a meter na mesma sala vinte alunos.” (Relatório do Vice-Reitor, Aníbal Augusto da Cunha Leal, 1956, p. 1. IAHN, cx. 242)

Entramos na casa

“A biblioteca, como é de supor, encontra-se na sua fase inicial e está instalada na Secretaria por falta de sala própria. O seu director foi o professor eventual Arnaldo Carlos Vasconcelos França tendo como auxiliar o contínuo Domingos Mendes.”(Relatório, 1956, p. 21).


O edifício do Liceu (a partir de 1960)

O edifício do liceu foi projectado pelo desenhador Luís de Melo. No orçamento geral da província para 1956 foi inscrita a verba de 1.500.000$00 para o edifício da Secção do Liceu Gil Eanes na Praia (Cabo Verde Boletim, 1956, Jan. p. 10), que seria construído no Largo do Chapuset (actual Largo do Montagarro).

Perspectiva do edifício do Liceu da Praia (Linóleo de L. Melo. Mocidade, 1956, Abril 22).

(Cabo Verde Boletim, 1956, Set., capa)

A construção do “grandioso edifício para as instalações do liceu” teve início no dia 23 de Janeiro de 1956, conforme notícia do Boletim de Propaganda e Informação: “O Sr. Dr. Baltasar Lopes da Silva, Digno Reitor do Liceu Gil Eanes […] teve a oportunidade de apreciar o projecto do edifício ora em construção. Pelo Sr. Director das Obras Públicas, Engenheiro Tito Lívio Esteves, foi feita  uma completa descrição do projecto, detendo-se especialmente na compartimentação, distribuição das salas de aulas, laboratórios, museus, serviços de reitoria, administrativos, etc.” (1956, Fev. p. 30).

A capa do Cabo Verde Boletim (1960, Julho) apresenta a fachada do novo edifício no dia da sua inauguração. A placa comemorativa (no átrio do liceu) assinala: “No decurso das comemorações do centenário da morte do Infante D. Henrique e do meio milénio e achamento de Cabo Verde foi este edifício inaugurado por S. Ex.ª o Governador Tenente-Coronel Eng. Silvino Silvério Marques, no dia 10 de Junho de 1960”.

Sete anos mais tarde, a casa do liceu já precisava de ampliações. O Arquipélago noticiava: “Com vista à ampliação do edifício do Liceu «Adriano Moreira» desta cidade, espera-se que seja construído um bloco para a instalação dos gabinetes de física, química, etc.” (1967, Ago. 17).

A pracinha do liceu

A praça do Liceu (Albúm 8, 1, IAHN)

O Liceu está situado numa agradável praceta. Na década de 60, o periódico O Arquipélago comentava:

“Os largos fronteiriços ao Liceu e Escola Central, são invadidos pelas vendedeiras ambulantes de bolos e guloseimas que «impingem» tudo aos incautos alunos em recipientes descobertos e sem rede, ou qualquer protecção contra as moscas. Senhores fiscais e autoridades: os vossos filhos também andam lá!”

“Cabras: encontram-se em vários locais da cidade, dizimando as árvores em formação e os jardins do liceu.” (1963, Março 7)

“Um local aprazível. E é também o lugar predilecto das «altas velocidades». às escuras é um local impróprio para menores e … até maiores!” (1963, Novembro 14).

“Os jardins do largo do Liceu e da Escola Central, metem dó com a falta de regas e cuidados. Água há e bem pagos … jardineiros também… porque se deixam tão maltratados esses e outros jardins da cidade? (Idem 14)

Na actualidade

Entramos no liceu

O primeiro piso

“Comporta doze salas de aula, cada uma com uma capacidade para 40 alunos, e salas para professores, reitoria, secretaria, arquivo, biblioteca, arrecadação, vestiários para professores com sanitários privativos, vestiários para alunos com sanitários e balneários colectivos, adjacentes ao ginásio, e em ligação também com espaços ao ar livre para actividades circum-escolares. Dois amplos vestíbulos estabelecem comunicação com largos corredores servindo os diferentes compartimentos” (Tito Esteves, 1956, Abril 22).

Um corredor do Liceu, Fev. 2010 (Fotografia de Ana M. Sousa)

No segundo piso

O salão de festas

“Um salão de festas e de exposições, salas de desenho, de trabalhos manuais e lavores, biblioteca, salas de estudo, salas de Mineralogia e Geologia, Botânica e Zoologia, Geografia, Química e Física, e amplos compartimentos anexos para laboratórios, museus, preparações e projecções. Uma câmara escura ficará ainda a servir a aula de Física” (Tito Esteves, 1956, Abril 22).

Painel da autoria de Pedro Gregório Lopes, Salão Josina Machel (Fotografia de Ana M. Sousa)

O salão é decorado com um magnífico mural da autoria de Pedro Gregório Lopes. Tal como hoje, há 35 anos “o artístico tecto do do salão nobre do edifício do Liceu «Adriano Moreira» [pedia] urgente reparação num dos ângulos, onde a pintura, sobre areia projectada, está a desagregar” (O Arquipélago, 1965, Out. 14, p. 4).

Equipamentos dos laboratórios

Microscópio, Liceu Adriano Moreira (Fotografia de Benvindo Neves)

Projector de opacos, Liceu Adriano Moreira (Fotografia de B. Neves)

Opticart, Liceu Adriano Moreira (Fotografia de B. Neves)

“Proposta para fornecimento aos Serviços de Educação dos materiais para os laboratórios […] Óptica: […]1 Lente, 50 mm foco, 1 Lente, 100 mm foco;  1 Lente, 200 mm foco;  1 Lente, 500 mm foco;  1 Suporte para a imagem;  1 Jogo de 3 imagens; 1 Mesa; 1 Modelo de espelho; 1 Modelo de lente (convexa); 1 Copo trapezoidal. […] ” (Anúncio de concurso 6/67. B.O. 17 de 29/4/1967)

“Relação do material destinado ao Liceu Adriano Moreira: […] 1 ficheiro para Biblioteca, 1 retroprojector, 1 opticart, 50 placas, 1 globo, 1 caixa de física electricidade nº 1, 1 caixa de física de óptica nº 2 […]” (Anúncio de concurso 18/71. B.O.  38 de 18/9/1971).

Quadro de Botânica, Liceu Adriano Moreira (Fotografia de Benvindo Neves)

Quadro de Botânica, Liceu Adriano Moreira (Fotografia de Benvindo Neves)

Celebração do lusitanismo

As paredes interiores do edifício do liceu da Praia, que ladeiam a escadaria, encontram-se decoradas com painéis de azulejos.

Encontro entre Vasco da Gama e o Samorim de Calcutá, painel em azulejos, Liceu da Praia (Fotografia de Benvindo Neves, 2007)

A restauração da independência de Portugal, em 1640, foi fixada num painel da autoria de F. Gonçalves:

– A restauração de Portugal em 1640 representada num painel em azulejos (Fotografia de Benvindo Neves)

Pormenor cimeiro do painel que representa a restauração de Portugal (Fotografia de Benvindo Neves)

Segundo a interpretação de Lourenço Gomes, na tese Valor simbólico do centro histórico da Praia – Cabo Verde, o que acentua “a ideia de espaço interior é a moldura que realça o espaço arquitectónico pintado, encarando toda a cena que constitui o movimento restaurador com a presença de elementos da iconografia religiosa como anjos e puttis” (2008, p. 437)

O universo espacial do liceu foi preenchido por uma linguagem valorativa, uma leitura subjectiva e instrumental da história, da retórica oficial do Estado Novo, que glorificava o passado do povo português – a fundação da nacionalidade, os descobrimentos, a restauração.

O dia a dia

“Os alunos do Liceu quando não têm uma aula , ressentem-se da falta de um recinto onde dar largas ao irrequietismo das crianças. Aqui não, porque incomoda; ali também não e acolá não, pelo mesmo motivo, diz o contínuo. São crianças e como crianças têm de ser tratadas…! em todos os seus actos.” (O Arquipélago, nº 25, de 31/1/1963, p. 2)

“Os jardins do largo do Liceu e da Escola Central, metem dó com a falta de regas e cuidados. Água há e bem paga… jardineiros também… porque se deixam tão maltratados esses e outros jardins da cidade.” (O Arquipélago, nº 32, de 21/3/1963, p. 2)

“Os alunos do liceu que moram nos subúrbios e saem ao meio dia, vão para a Achada e Achadinha e outros pontos debaixo de um sol de «rachar». Daqui a tempos, querendo Deus, irão debaixo da chuva. Quando haverá uma carreira de auto-carro nesta senhora Capital?” (O Arquipélago, nº 38, de 2/5/1963, p. 4)



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